Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Acordar


 


 


Dorme meu filho
depressa,
dorme
que a noite já vem,
o teu pai está tão
cansado
de tanta dor que ele tem.


 


Dor no lombo e no
espinhaço,
no peito e no coração,
dor de estar feito em
bagaço,


dor de tanta exploração.


 


Dorme meu filho
depressa,


dorme
que a noite já vem, o teu
pai está tão cansado,
tão cansada tua mãe.


 


Tão cansada de esfregar
as escadas que tem a
vida,
tão cansada de chorar,
tão cansada, tão sofrida.


Dorme meu filho


depressa,
dorme
que a noite já vem,
do teu pai só herdarás
a revolta que ele tem.


 


Crescerás na lama e nu
sem ter brinquedos nem bola,
verás outros como tu,
bem vestidos ir à escola.


 


Dorme meu filho
depressa,
dorme
que a noite já vem,
o teu pai é operário,
serás operário também.


 


Talvez aprendas a ler
se o dinheiro nos chegar,
mas tu só vais aprender
quando tiveres que lutar.


 


Dorme meu filho


depressa,
dorme


que a noite já vem,


 


Dorme meu filho


os teus pais muito lutaram


e tu lutarás também


Não viverás mais vergado,
não terás mais que sofrer,
não serás mais explorado,
vais lutar e vais vencer!


 


 


José Fanha


 

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