Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Ao abandono ou a caminho da Liberdade?

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Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.


Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.


Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.


 


Sim: existo dentro do meu corpo.


Não trago o sol nem a lua na algibeira.


Não quero conquistar mundos porque dormi mal,


Nem almoçar o mundo por causa do estômago.


Indiferente?


Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,


Um momento no ar que não é para nós,


E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,


Traz! na realidade que não falta!


 


Não tenho pressa. Pressa de quê?


Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.


Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,


Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.


Não; não tenho pressa.


Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -


Nem um centímetro mais longe.


Toco só aonde toco, não aonde penso.


Só me posso sentar aonde estou.


E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,


Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,


E somos vadios do nosso corpo.


E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.


 


Alberto Caeiro

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