O senhor K. não gostava de gatos. Não lhe parecia que fossem amigos do homem, e portanto não era amigo deles. «Se tivéssemos os mesmos interesses», dizia, « a sua atitude hostil ser-me-ia indiferente.» No entanto, o senhor K. ficava contrariado se tivesse de fazer os gatos saltarem da sua cadeira. «Deitarmo-nos a descansar é trabalho», dizia, « e deve por isso ter êxito.» Por outro lado, quando os gatos se punham a miar atrás da porta levantava-se da cama, mesmo que fizesse frio, e deixava-os entrar para o quente. «O cálculo que eles fazem é muito simples», dizia, «Quando chamam, alguém vai abrir-lhes a porta. Quando deixamos de ir abrir-lhes a porta, deixam de chamar. Logo, chamar é um progresso.»
Bertold Brecht
Se cada um de nós for uma porta, e essa porta nunca for aberta, será porque ninguém nos chama ou porque estamos sempre trancados.
Alice Alfazema
