Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Chamar é um progresso

 



 


 


O senhor K. não gostava de gatos. Não lhe parecia que fossem amigos do homem, e portanto não era amigo deles. «Se tivéssemos os mesmos interesses», dizia, « a sua atitude hostil ser-me-ia indiferente.» No entanto, o senhor K. ficava contrariado se tivesse de fazer os gatos saltarem da sua cadeira. «Deitarmo-nos a descansar é trabalho», dizia, « e deve por isso ter êxito.» Por outro lado, quando os gatos se punham a miar atrás da porta levantava-se da cama, mesmo que fizesse frio, e deixava-os entrar para o quente. «O cálculo que eles fazem é muito simples», dizia, «Quando chamam, alguém vai abrir-lhes a porta. Quando deixamos de ir abrir-lhes a porta, deixam de chamar. Logo, chamar é um progresso.»


 


Bertold Brecht


 


 


Se cada um de nós for uma porta, e essa porta nunca for aberta, será porque ninguém nos chama ou porque estamos sempre trancados.


 


 


Alice Alfazema

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