Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

5 Km

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Qualquer caminho leva a toda a parte.


Qualquer ponto é o centro do infinito.


E por isso, qualquer que seja a arte


De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,


Tudo é estático e morto. Só a ilusão


Tem passado e futuro, e nela erramos.


Não há estrada senão na sensação


É só através de nós que caminhamos.


 


Tenhamos pra nós mesmos a verdade


De aceitar a ilusão como real


Sem dar crédito à sua realidade.


E, eternos viajantes, sem ideal


Salvo nunca parar, dentro de nós,


Consigamos a viagem sempre nada


Outros eternamente, e sempre sós;


Nossa própria viagem é viajante e estrada.


 


Que importa que a verdade da nossa alma


Seja ainda mentira, e nada seja


A sensação, e essa certeza calma


De nada haver, em nós ou fora, seja


Inutilmente a nossa consciência?


Faça-se a absurda viagem sem razão.


Porque a única verdade é a consciência


E a consciência é ainda uma ilusão.


 


E se há nisto um segredo e uma verdade


Os deuses ou destinos que a demonstrem


Do outro lado da realidade,


Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.


O caminho é de âmbito maior


Que a aparência visível do que está fora,


Excede de todos nós o exterior


Não para como as coisas, nem tem hora.


 


Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa


E é a própria estrada, sem a estrada ser.


É absurda a oração, absurda a queixa.


Resignar(-se) é tão falso como ter.


Coexistir? Com quem, se estamos sós?


Quem sabe? Sabe [...] que são?


Quantos cabemos dentro em nós?


Ir é ser. Não parar é ter razão.


 


Poema de Fernando Pessoa

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