Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Jogar ao bugalho

Quando eu era miúda joguei muitas vezes ao bugalho, que era o nome que dávamos em Setúbal ao jogo do berlinde.

Haviam bugalhos grandes e outros mais pequenos. Havia, ainda, uns bugalhos minúsculos, os quais não me lembro do nome que lhes dávamos, mas sei que eram muitas das vezes decisivos para chegarmos à vitória, estes não eram comprados como os outros, eram antes retirados das garrafas de bebida - penso que serviam para regular a saída do líquido, e julgo que eram de garrafas de uísque. Para a malta viciada no jogo eram dos mais valiosos, quer em termos de trocas por outros, quer na destruição dos outros bugalhos, pois atingiam uma velocidade considerável quando bem executado o toque entre o polegar e outro dedo, digo outro dedo porque podíamos usar qualquer um dos outros dedos, conforme a melhor estratégia e força do jogador. 

No fundo a estratégia era afastar todos os outros e acertarmos na cova.

E por falar nisso, lembrei-me do que disse Sebastião Bugalho, no passado sábado:
"Em jeito de reconhecimento do esforço de todos os professores que estão neste momento, numa manhã de sábado, a corrigir as provas dos exames nacionais, foi decidido pelo senhor ministro da Educação que o Governo vai pagar horas extraordinárias a todos os professores que estão a corrigir essas provas, em reconhecimento pelo seu esforço extraordinário"

Se eu tivesse de classificar este bugalho diria que ele é uma pinoia.

Assim, deste modo corriqueiro e viral, ficámos todos a saber que as horas extraordinárias são pagas, não com fundamento na lei, mas pela boa vontade do senhor ministro da Educação Fernando Alexandre

Conclusão: estamos a viver tempos extraordinários, em que o que se diz é tudo na base de uma trumpice.

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