Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Os filhos não nascem sozinhos

 


 


Há uma tendência para falar do outro, dar opiniões que não foram pedidas, há um desleixo total de valores e de respeito, há uma frieza incontornável, em que se culpam uns e outros, há uma nulidade de emoções.


 


Os filhos não nascem sozinhos, a sociedade não é feita de um só ser, a culpa não é solitária, a culpa é de todos, da indiferença com que se vive os sentimentos, daquilo que se passa ao outro, daquilo que queremos, daquilo que os outros querem, da vergonha de se ser, da vergonha do que se foi, da vergonha do que se irá ser, de não ter vergonha, de não ter medo, de ter medo, de não ter coragem.


 


O tempo passa e o arrasta neste e naquele dissabor, num mar de ninguém, em que a transmissão de sentimentos é feita por máquinas e para máquinas, amam-se sem compromisso, num contrato escrito, esquecem-se da sua condição humana, da dor, do amor, alastram dentro de si mundos rebeldes que pensam dominar, tal como nos jogos, mas a vida não é um jogo, não é virtual, não é banal e eles ainda não o sabem.


 


 


 


 


Alice Alfazema

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