Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Arraigar

IMG_20220408_143115.jpg  


 


Ali não havia electricidade.


Por isso foi à luz de uma vela mortiça


Que li, inserto na cama,


O que estava à mão para ler —


A Bíblia, em português (coisa curiosa!), feita para protestantes


E reli a «Primeira Epístola aos Coríntios».


Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província


Fazia um grande barulho ao contrário,


Dava-me uma tendência do choro para a desolação.


A «Primeira Epístola aos Coríntios»...


Relia-se à luz de uma vela subitamente antiquíssima,


E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim...


 


Sou nada...


Sou uma ficção...


Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?


«Se eu não tivesse a caridade».


E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,


A grande mensagem com que a alma é livre...


«Se eu não tivesse a caridade»...


Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...


 


Poema de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944


 


 

0