Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Azul cristal


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Ilustração  Mariateresa Quercia


Ter alguém que nos escute e que oiça as nossas palavras é talvez o mais puro azul encontrado entre o ente e o ser, é algo tão cristalino que temos dificuldade em percebe-lo, e por vezes quando nos somos apresentados nem damos por isso tal é a transparência do encontro. 



 

Ouve-me: preciso de um amigo que abane o (meu) mundo.

Não sei se escutaste bem: tem de ter um coração de ave,

mas o seu grito contra o mal tem de ser forte como trovão.

Se eu cair, há-de levantar-me como se eu fosse pluma.

Soprará nas minhas feridas e a minha dor passará como nuvem.

Sempre quis um amigo assim.

Quando a solidão me fechava num quarto, ele abria janelas.

Se as lágrimas rolavam porque alguém partira, bebia-as como licor.

Sabia que voltava para o seu país quando há muito os meus olhos dormiam.

Disse-me num por do sol que chegaria um dia em que eu não daria pela sua

ausência.

Ficaria a vigiar-me do seu país e daria recomendações às estrelas, à lua e aos peixes.

Faltou uma manhã e não mais voltou.

 

 

 

Poema de Lília Tavares

 

 

 

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