Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

"Lavamos as mãos para evitar certas palavras"

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Olhamo-nos nos olhos pela internet.


 


Eu transmito-te este domingo à tarde,


a voz do vizinho através da parede.


 


Tu transmites-me a distância que existe


depois do que consigo ver pela janela.


 


Durante a noite mudou a hora e, no entanto,


continuamos no tempo de ontem.


 


Como é raro este domingo, não podemos


garantir que amanhã seja segunda-feira.


 


O futuro perdeu-se no calendário, existe


depois do que conseguimos ver pela janela.


 


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O futuro diz alguma coisa através da parede,


mas não entendemos as palavras.


 


Lavamos as mãos para evitar certas palavras.


 


E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:


tu e eu estamos juntos neste verso.


 


O poema é como uma casa, tem paredes


e janelas, é habitado pelo presente.


 


Olhamo-nos nos olhos pela internet,


estamos verdadeiramente aqui.


 


O poema é como uma casa,


e a casa protege-nos.


 


 


Poema de José Luís Peixoto, 29 de Março de 2020


 


As ilustrações são de Eiko Ojala


 



 


 

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