É com muito agrado que vejo as pessoas, no meu país, a manifestarem-se na rua, por uma vida digna, pelo direito à habitação, pois como sabemos não basta ganhar bem para se conseguir comprar ou alugar uma casa, e a vida não tem que ser vivida em permanente sacrifício, quando se trabalha e se paga impostos para que este país funcione.
E não é porque não trabalhas, como se diz por aí, e não é por egoísmo como disse o Nosso Senhor 1º Ministro Luís Montenegro, e não é pelos apupos da direita, é sim pelos interesses instalados, pela corrupção existente e disfarçada pelas mentiras ao desbarato, pelas borlas fiscais aos grandes grupos económicos, etc.
Pego nas palavras de Adriano Zilhão, no Jornal Maio (podem ler o restante clicando no texto abaixo):
Na “sociedade de mercado” das cidades modernas, tudo se compra e vende, tudo se merca — em mercados. Ora, a única mercadoria e riqueza que o trabalhador pode pôr à venda no mercado, para poder adquirir com que comprar meios de subsistência, é a força dos seus braços e da sua inteligência: a sua força de trabalho. (...)
Ora, há uma diferença fundamental entre o mercado das couves, por exemplo, e o da habitação. No das couves, quando aumenta a procura, pode-se produzir mais couves em qualquer parte em que haja terra de cultivo e transportá-las para o mercado. No da habitação, o solo para habitar num dado local é fixo. Uma vez ocupado, não se pode “produzir” mais solo nesse local.
Portanto, sendo os trabalhadores obrigados a habitar certo local ou a uma proximidade razoável dele, quem detenha a propriedade desse local tem uma posição de monopólio.
Assim, o proprietário do solo pode, sem nada investir ou fazer, cobrar uma renda. E essa renda pode ser tanto maior quanto mais procurada for a localização de que é proprietário — embora ele geralmente em nada tenha contribuído para as razões de tal procura, que podem ser a construção de fábricas ou locais de trabalho nas proximidades, a expansão urbana, o turismo, etc.

As fotografias são de Egídio Santos







