Alice Alfazema

Recortes do quotidiano: do meu, do teu, do seu, e dos outros.

Que parva que eu fui

Assunto  de que se fala: hino da "geração parva"


 


 Na minha história eu poria o verbo no passado e diria:


 


Que parva que eu fui,


Começar a trabalhar antes dos quinze anos,


não viver a adolescência,


para ajudar os pais,


por uma ninharia...


levantar-me às 5h, viajar em dois transportes


e trabalhar nove horas diárias,


numa linha de produção...


 


Fazer greves e lutas laborais


para que o horário fosse reduzido


para que licença de maternidade


fosse uma realidade


para que a hora da mama


chegasse a ser verdade,


para que existisse


subsídio de refeição,


de férias e de Natal,


para que outras leis se tornassem uma realidade


tais como o direito ao estudo,


que parva que eu fui...


 


Se soubesse que esta geração


valor não lhe atribuí,


tinha ficado no meu canto,


esperando acontecer,


esmolando


me vitimizando


sentindo pena de mim


que parva que eu fui...


 


Os tempos que correm são difíceis,


nunca o foram fáceis,


a ninharia é a mesma,


que parva que eu fui...


podia ter ficado mais tempo na casa dos pais,


ter trabalhado menos,


não me ter sacrificado pelos filhos,


arranjava antes um cão...


punha as culpas nos outros,


e pensava antes na aparência


no casaco, no carro,


no perfume...


que parva que eu fui...


 


Agora não posso voltar atrás,


numa próxima encarnação...Quem sabe?


 


Alice A.

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